Serenidade

Sensibilidade...

17 maio 2006

A menina e a avó

Vou contar uma história. Apetece-me.
Era uma vez uma menina que viva com a sua avó e seus pais numa casa muito humilde e em más condições habitacionais, tal como as restantes daquela “ilha”, tal como se chamava e ainda se chama.
Esta “ilha” era constituída por seis casas, logo seis famílias. Seis famílias que eram uma só. Todos se ajudavam mutuamente, sentiam o sofrimento uns dos outros mas também as alegrias.
Citando um exemplo de ambos:
Quando alguém estava doente e tinha que passar a noite no hospital as outras famílias cuidavam dos mais pequenos.
As datas festivas, estas, eram passadas num convívio simples, mas alegre. Por exemplo, no Carnaval o pátio era enfeitado com serpentinas, os miúdos pintavam-se, arranjavam roupas velhas para transformarem em qualquer coisa engraçada e dançavam ao som da música. Enquanto os graúdos assistiam e colaboravam sempre que os miúdos insistiam e os empurravam para o meio para também eles brincarem como se de crianças se tratassem. Citei o Carnaval, mas poderia também dar-vos exemplos de Passagens de ano, aniversários, comunhões, etc.
Mas voltando à menina.
Ela cresceu, sem irmãos biológicos, mas tendo muitos irmãos de coração (especialmente 4 irmãs, que considerava e considera como suas e elas igualmente!), uma vez que na “ilha” haviam muitas crianças com idades aproximadas, talvez a mais velha da mais nova existisse uma diferença de dez anos, eram 6 raparigas e 1 rapaz, contando com uma outra família mais adiante, mas igualmente pertencente a esta grande família, eram mais 8 rapazes e 2 raparigas.
Talvez um dia conte as variadíssimas aventuras que estas crianças tinham, que podem crer, são muitas. Humildes crianças, mas divertiam-se tanto… com tão pouco!
Até aos seus quinze anos essa menina, agora adolescente, viveu nessa ilha. Depois… foi viver para uma casa nova. Sua avó não quis ir. Quis ficar “na sua casinha” tal como dizia, com más condições, por exemplo de Inverno chovia em alguns sítios, era necessário colocar um plástico no telhado caso contrário mais chuva caía dentro, não tinha casa de banho, mas era a sua casinha. Onde tinha vivido com o seu marido, onde este tinha falecido, onde tinha tido o parto da sua filha mais nova (mãe da menina), onde viu os seus cinco filhos crescerem e casarem, etc.
Mas a menina, apesar de ter mudado de casa, continuava a estar sempre lá. Digamos que na casa nova apenas dormia. Almoçava na sua antiga casa, depois casa da avó, passava lá a manhã, a tarde e só ia para casa à noite. Nos fins-de-semana era a mesma coisa. Até porque estavam lá todos os seus amigos e … a sua avó.
Os anos iam passando e ela começava a sentir o “peso” da responsabilidade do 12º ano, ano decisivo para entrar num novo percurso, o da faculdade, que tanto queria, tal como seus pais e avó. Começou a afastar-se um pouco da “ilha” e seus amigos, “tinha que estudar” dizia. E… conseguiu o que ansiava, entrou na faculdade e… voltou a ser frequentadora assídua da “ilha” e, como tal, da casa da avó. Mas, foi um ano em que ela foi um pouco abaixo, como adolescente que era, nesse ano também vivenciou uma pequena desilusão amorosa (coisas de adolescente mas que para ela, nessa altura, foi muito significativo).
Nesse verão também começou a tirar a carta de condução. Sua avó, já com uma certa dificuldade em conciliar as suas ideias e raciocínio, pedia-lhe para quando ela tirasse a carta fosse com ela a Lisboa porque, dizia “ O apresentador da televisão ofereceu-me dinheiro, por isso vais lá comigo buscá-lo que eu pago-te a gasolina”. A menina para não desapontá-la, dizia que sim, que qualquer dia iria com ela lá!!
Em Outubro desse ano a menina tirou a carta e a sua avó sentia-se duplamente orgulhosa da sua única neta (tinha vários netos, mas neta era a única), estava na faculdade e tirou a carta de condução.
Novembro chegou e… com ele uma situação muito triste e imprevisível. A avó foi de viagem, sem a neta, mas não se esqueceu de se despedir dela, não lhe dizendo nada para não a desapontar. No dia anterior passaram o dia juntas, a menina fez todas as vontades da sua avó. A menina ainda se lembra de tudo o que fez e do que deu à sua avó para comer (o que ela gostava muito claro, até lhe deu na boca como se de um bebé se tratasse) nesse dia. Ao fim da tarde quando se despediram, sua avó deu-lhe um abraço muito forte e pediu-lhe para voltar no dia seguinte, a menina (agora jovem adulta), ainda hesitou mas depois, perante olhar tão meigo e doce, não conseguiu negar. O dia seguinte chegou, a menina foi à “ilha” mas, mesmo antes de lá chegar ficou a saber da viagem… a menina quase iniciou também ela uma viagem, nunca se tinha sentido assim!
A sua amiga, companheira, confidente, mãe e filha, mas perante os outros, avó e neta, tinha partido e ela sentiu-se só e frágil como nunca.
A menina também começou uma viagem, nessa altura. Uma viagem de auto destruição (tinha sido um ano de muitas situações que exigiram muito dela). Durante anos acho que a vida nada significava, deixou de ter, fisicamente, quem tanto apoio e conforto lhe dava, como tal … achava que não valia nada e por isso… auto destruí-se sem saber. Esta durou vários anos, mas numa coisa foi sempre firme, no curso que tanto orgulho dava à sua avó. Tirou o curso, nas suas fitas de finalista deixou um espaço para aquela que muito orgulho teria em colocar lá algo (não sabia escrever a sua avó, era a menina que assinava os seus vales da reforma!). E… quando comprou o seu carro, a primeira coisa que pensou foi na sua avó a seu lado a caminho de Lisboa (afinal alguém lhe queria dar algo!), mas também imagina-a a seu lado, a sorrir-lhe, enquanto faz as suas viagens diárias para o seu trabalho.
Hoje em dia a menina, jovem adulta, pensa ainda muito na avó, mas sabe que ela está sempre consigo, no seu coração, para sempre e desde sempre.
Pensando em ti, Maria. Até qualquer dia!

3 Comments:

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At 21/7/06 06:56, Anonymous Anónimo said...

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